Onde deuses gregos e persas se encontram

Algumas viagens têm pontos altos tão altos que a gente nem precisa pensar quando alguém pergunta sobre o lugar que mais gostamos nelas. A resposta vem quase como um reflexo.

Nemrut Dag

É isso que acontece comigo quando alguém me pergunta sobre o highlight do interior da Turquia, por onde passei com o Expresso Persa Rota da Seda.

“Nemrut Dag”, eu respondo sem nem piscar.

Um lugar que, na verdade, eu nem imaginava que existisse antes de ler o itinerário da viagem e não imaginava que pudesse ser tão fantástico.

Se o Reino Comagena ocupa algum espaço nos livros de história que circulam pelo Brasil, acredito que não ocupe muitas páginas. Isso me parece meio óbvio, até. O Reino Comagena existiu ao redor da época de Cristo, foi muito pequeno, perdido no meio de um monte de outros reinos e impérios – incluindo o romano – e teve uma existência independente que ficou próxima de míseros 200 anos.

Reino Comagena

Mas o tamanho reduzido e a curta duração livre não impediram Comagena de ter ao menos um rei megalomaníaco, que se achava um deus e queria passar a eternidade ao lado de seus colegas divinos.

Antíoco I, o tal rei doidão, mandou construir para ele mesmo um – atenção que a palavra é difícil – hierothesion, termo grego para definir o lugar que é ao mesmo tempo tumba, templo e morada dos deuses.

Assim nasceu a maior atração da região turca de Adiyaman e um lindo Patrimônio da Humanidade da Unesco (desde 1987): o Nemrut Dag, que pegou este nome do monte onde está localizado.

O hierothesion de Nemrut Dag é enorme e interessantíssimo. Ele é feito de 30 mil metros cúbicos de cascalho que dão o aspecto de uma pequena montanha de 150 metros de diâmetro e 50 metros de altura. Tudo isso 2200 acima do nível do mar.

Ao redor dele, Antíoco I mandou que fossem construídos 3 terraços, voltados para o norte, o leste e o oeste (veja a animação abaixo).

Nos dois últimos, apontados para o nascer e o pôr do sol, estão as atrações mais incríveis do Nemrut Dag: as cabeças e as ruínas das estátuas de 10 metros de altura representando os deuses que Antíoco queria que passassem a eternidade com ele, além de estátuas de leões, águias, relevos de Antíoco, relevos da família real, escrituras e também aquele que dizem ser o mapa astrológico mais antigo do mundo.

Terraço leste. Klearchos Kapoutsis (CC BY 2.0)

Terraço leste. Klearchos Kapoutsis (CC BY 2.0)

Terraço oeste

Terraço oeste

Zeus. Terraço oeste

Zeus. Terraço oeste

Antíoco I (Shutterstock)

Apolo no terraço leste. (Shutterstock)

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Terraço leste. (Shutterstock)

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Um dos leões. (Shutterstock)

Tique (a deusa Fortuna), Zeus, Apolo e Héracles (Hércules) estão representados em Nemrut Dag, junto com Antíoco I, óbvio. Em alguns deles, algo curiosíssimo: as evidências da mistura de crenças gregas e persas que existia na sociedade comagena. Zeus, por exemplo, também é Ahura Mazda, o deus dos persas zoroastristas, enquanto Héracles também é um anjo de nome complicado, dos mesmos zoroastristas.

Aliás, o próprio Antíoco I era uma mistura das duas culturas, por ser descendente de ninguém menos que Alexandre, o Grande, e Dario I, um dos maiores reis da Pérsia.

Antíoco I, no terraço leste. (Shuttestock)

Antíoco I, no terraço leste. (Shuttestock)

Não é fácil chegar a Nemrut Dag. Ainda que a Turquia tenha uma infra de turismo impressionante, com acesso organizado e facilidades próximas até mesmo dos lugares mais fim de mundo, é preciso subir sei lá quantos metros de montanha para conseguir alcançar os terraços de Antíoco I.

Subida Nemrut Dag

Klearchos Kapoutsis (CC BY 2.0)

Terraço oeste. Foto: Klearchos Kapoutsis (CC BY 2.0)

Mas acredite neste pobre blogueiro: estar naquele lugar tão incrível, perto de estátuas com tanta história, com a paisagem embasbacante da cordilheira Taurus ao seu redor, vale cada passo, cada respiração ofegante e cada suor escorrido da testa no caminho montanha acima.

E você ainda pode dizer simplesmente “Nemrut Dag” quando perguntarem sobre o melhor do interior da Turquia.

 

nemrut dag na pratica

Como eu estava num tour, não vivi muitas situações que pudessem me render dicas práticas sobre Nemrut Dag. Mas pesquei algumas que podem ajudar.

 

Como chegar

Segundo o livrinho de turismo oficial de Adiyaman, os melhores pontos de partida até o monte são as cidades de Adiyaman (a capital da região) e Kahta. Ambas têm um aeroporto nos arredores (código ADF), com voos da Turkish, e são cheias de opções de tours e locadoras de carros.

Minha dica: se você não quiser nenhuma das opções de transporte anteriores, tente conseguir um táxi. Pergunte no seu hotel. Eles devem ter alguém para indicar.

 

Onde ficar

Não sei onde ficar nestas duas cidades acima, mas almocei em um lugar que me pareceu ser uma ótima opção para quem quiser passar uma noite o mais próximo possível de Nemrut Dag: o Nemrut Kervansaray Hotel.

Ele é o hotel mais perto da entrada do parque onde fica a montanha. Não é luxuoso (longe disso) mas é suficientemente decente para uma noite. E você ainda pode acordar bem cedo para pegar o nascer do sol no monte.

 

O que levar

A subida até o topo da montanha é dura, então esteja preparado para caminhar bastante, com roupas que combinem com o esforço. Ao mesmo tempo, dependendo da época da sua visita, pode fazer um frio terrível lá em cima, inclusive com neve.

 

Infraestrutura no local

É ótima. Tem banheiro, mulas para quem tem dificuldade ou preguiça de caminhar tanto (mas elas só vão até uma parte, ainda é preciso subir um pouco mais), lojinha de souvenir, estrada e trilha pavimentadas. Não vi se tem restaurante, mas acredito que tenha no mínimo um lugar para comprar água.

Apolo, Antíoco I e Zeus, na sala da minha casa

Apolo, Antíoco I e Zeus, na sala da minha casa

 

Quando ir

Eu estive em maio. O livrinho do turismo de Adiyaman diz que o período ideal é entre abril e outubro. Fora disso, pode haver neve e acesso interrompido.

 

Onde pesquisar mais

Aqui, aqui, aqui e aqui.

gabrielquerviajar.com.br